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Nacional

Termômetro e diário, a rotina dos voluntários que testam uma candidata a vacina contra Covid-19

SÃO PAULO (Reuters) - O reforço no uso dos equipamentos de proteção individual e o cuidado redobrado com a higienização constante tornaram-se parte da rotina dos profissionais de saúde em meio à pandemia, mas para alguns outras novidades foram acrescentadas ao dia a dia: aferição da temperatura, consultas médicas periódicas e preenchimento de um diário sobre o estado de saúde.

Vinicius Molla, hematologista e voluntário nos testes da potencial vacina de Oxford contra a Covid-19, examina paciente em São Paulo 09/07/2020 REUTERS/Amanda Perobelli

Essas são algumas das novas responsabilidades de médicos do Hospital São Paulo, ligado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que participam como voluntários nos testes de uma potencial vacina contra a Covid-19 e que também tiveram de se adaptar ao “novo normal” que a pandemia tem imposto aos hospitais.

“As cirurgias eletivas foram quase todas canceladas. Então a gente está trabalhando com urgências”, disse à Reuters o residente em cirurgia pediátrica do Hospital São Paulo Luiz Augusto Rizzo, de 29 anos, um dos 2 mil voluntários que participam do teste com a potencial vacina, desenvolvida em conjunto entre a Universidade de Oxford e a farmacêutica AstraZeneca, em São Paulo.

“Em termos pessoais, é de casa para o hospital, do hospital para casa, não tenho feito mais nada além disso, estou sem ver os meus pais, mas essa parte acho que está igual para todo mundo”, afirmou.

Rizzo conta que, como um dos primeiros voluntários a receber a injeção --que pode ser da potencial vacina contra a Covid ou de uma imunização similar no modelo de ensaio clínico conhecido como duplo cego-- ele tem de medir sua temperatura ao menos uma vez por dia, preencher online um diário sobre seu estado, estar à disposição dos pesquisadores para consultas periódicas e informá-los sobre quaisquer alterações.

Além disso, a pandemia também fez com que tivesse de fazer uma mudança no apartamento em que mora, na zona sul de São Paulo próximo ao hospital, criando um novo ambiente no local.

“Quando chego em casa, já tiro a roupa, deixo no cantinho do Covid aqui, o tênis também, sapato. E aí já higienizo celular, carteira, tudo com álcool 70, deixo no cantinho um tempinho e vou para o banho. Saindo do banho, vida normal”, disse.

A candidata a vacina de Oxford começou a ser testada no Brasil na semana do dia 22 de junho. Além dos 2 mil voluntários em São Paulo, onde o ensaio é financiado pela Fundação Lemann, do empresário Jorge Paulo Lemann, também participarão voluntários no Rio de Janeiro, onde os testes serão bancadas pela Rede D’Or de hospitais, e em um local a ser definido na Região Nordeste. Todo o estudo no Brasil será liderado pela Unifesp.

A candidata a vacina já passou pelas Fases 1 e 2 de testes em seres humanos --que visam indicar se representam riscos-- e os testes em andamento na Unifesp estão na Fase 3 --que busca determinar sua eficácia para permitir seu registro junto às autoridades e consequente aplicação na população.

Caso a vacina se mostre eficaz contra a Covid-19, doença na qual o Brasil só fica atrás dos Estados em número de infectados e mortos, o Ministério da Saúde já firmou acordo para que seja produzida localmente.

ESPERA DE UM ANO

Os voluntários serão acompanhados por um ano, mas resultados preliminares podem sair antes desse prazo e indicar que a vacina é eficiente, como explicou em entrevista recente à Reuters a reitora da Unifesp, Soraya Smaili. [nL1N2E12YL]

Mas, para os profissionais que participaram dos testes, mesmo um resultado antecipado sobre a eficácia da vacina não abreviará a resposta ao que hoje é um mistério: eles tomaram a vacina contra Covid-19 ou receberam a similar?

“Não necessariamente para sair a vacina vai demorar um ano, mas para eu saber se eu fui vacinado para o Covid ou não, vou demorar um ano para saber”, explicou Rizzo.

Assim como o residente em cirurgia pediátrica, o hematologista Vinicius Molla, 33 anos, ficou sabendo dos testes pelos colegas infectologistas. Molla, que além de trabalhar no Hospital São Paulo atua no Hospital Sírio-Libanês, principalmente na área de transplantes de medula, teve um motivo bastante especial para decidir participar.

“Primeiro a vontade de ajudar o estudo clínico. Eu faço estudo clínico, sei da dificuldade de conseguir voluntários para participar”, contou ele, cuja esposa também é médica e também voluntária no estudo clínico da potencial vacina de Oxford.

“A qualidade do estudo é muito boa. É muito bem desenhado”, elogiou Molla, que em breve deixará temporariamente o setor de hematologia para atuar na enfermaria que atende os pacientes com Covid-19 no Hospital São Paulo.

O fato de a vacina de Oxford --apontada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como a mais avançada em estudo contra a Covid-19 no mundo-- ter se mostrado segura nos testes anteriores também foi um atrativo para participar dos testes e é um indicador de que ela pode ser bem-sucedida, disse o hematologista.

Caso isso aconteça, os voluntários que ficaram no chamado grupo controle, ou seja, não receberam a vacina contra Covid-19, mas uma similar, receberão a vacina contra a doença respiratória causada pelo novo coronavírus.

Até lá, termômetro na mão, diário preenchido e olho no calendário para não perder o prazo das consultas com os pesquisadores.

“Minha próxima visita é daqui a um mês”, conta Molla que, assim como Rizzo, e num provável sinal positivo para o estudo, até agora não apresentou nenhuma reação ou alteração ou sintoma.

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