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BC começa a ver volatilidade cambial de forma mais clara, mas menos intervenção é melhor, diz Campos Neto

BRASÍLIA (Reuters) - Após ter indicado nas últimas semanas que o Banco Central ainda estava investigando as causas da volatilidade cambial, o presidente da autarquia, Roberto Campos Neto, afirmou nesta quarta-feira que começou a ter figura um pouco mais clara, mas pontuou que quanto menos intervenção houver no mercado, melhor.

Presidente do BC, Roberto Campos Neto. REUTERS/Ueslei Marcelino

“A gente começa a ver que alguns elementos de volatilidade a gente consegue atribuir à nova forma de negociação, de terem mais contratos menores e de ter mais desses fundos automatizados. Mas o que a gente tem dito é que não é suficiente para explicar 100%”, disse ele em live promovida pelo Valor Econômico.

“Entendemos que tem uma volatilidade. Estamos identificando da onde vem a volatilidade, acho que a gente começou a ter figura um pouco mais clara”, acrescentou.

Ele destacou que, independentemente das causas, outros países do mundo adotaram dois tipos de remédio em relação à volatilidade: atuação com opções ou intervenções em corredor. Ambos mostraram resultados que não foram considerados satisfatórios.

“Então a gente segue acompanhando. A gente acha que quanto menos intervenção tiver no mercado, melhor. Obviamente que se o mercado ficar disfuncional para um lado ou para outro, a gente faz intervenção como a gente fez no passado”, disse.

Segundo Campos Neto, o BC segue debruçado sobre o tema. Ele reiterou ainda crença de que a volatilidade tende a cair nas próximas semanas.

JUROS E ATIVIDADE

Durante sua participação, ele afirmou que não há constrangimento em usar remédio dos juros dentro da missão do BC de levar a inflação para a meta, ponderando que a dose a ser administrada é olhada por causa dos efeitos contraproducentes que pode desencadear.

Campos Neto ressaltou que o choque na economia foi muito grande em meio à crise com o coronavírus, com a atividade entrando em uma espécie de coma induzido no segundo trimestre, demandando uma adaptação no horizonte que tem sido comunicada pelo BC.

“Você primeiro precisa identificar qual é o remédio. A pergunta é: existe algum constrangimento de usar esse remédio ou não? Não, não existe”, disse.

“Mas depois a segunda pergunta é: esse é o remédio adequado e qual é a dose que você recomenda desse remédio. Então a dose é o quanto a gente acha que dá para fazer e o quanto a gente acha que deve fazer”, completou.

O presidente do BC afirmou que um movimento de juros pode causar “resultado contrário em termos de condições financeiras”.

O Comitê de Política Monetária (Copom) do BC se reúne em 4 e 5 de agosto para sua próxima decisão sobre os juros básicos, atualmente na mínima histórica de 2,25% ao ano.

Segundo Campos Neto, o BC segue comprometido com a meta de inflação.

“Em nenhum momento o Banco Central abandonou a meta e nem temos o entendimento de que estamos passando nenhum tipo de mensagem que tenha esse conteúdo”, afirmou.

A meta de inflação em 2020 é de 4% e a de 2021, de 3,75%, nos dois casos com margem de 1,5 ponto para mais ou para menos. Em meio aos efeitos da pandemia de Covid-19 na atividade, a expectativa mais recente dos agentes, colhida na pesquisa Focus, é de um IPCA em 1,72% neste ano e de 3% no ano que vem.

Campos Neto sublinhou que, com os juros mais baixos, o país tem assistido à captação recorde da poupança, com fundos de renda fixa registrando saída de recursos.

De acordo com o presidente do BC, há várias mudanças estruturais na parte de funding e captação do sistema financeiro que estão ligadas aos juros. Com a crise, 80% da precificação do crédito é atrelada ao custo de liquidez (se banco tem caixa ou não) e ao custo de capital (expectativa da inadimplência futura a valor presente), e não mais à Selic, como era no passado.

“É como se você tivesse invertido essa relação. Por isso é tão importante... a gente ter certeza de que sistema está líquido e capitalizado”, afirmou ele, após ter frisado que o crescimento do crédito deverá ser muito importante para o formato da recuperação econômica.

Campos Neto afirmou que a estimativa oficial da autarquia para o Produto Interno Bruto (PIB) neste ano, de retração de 6,4%, é hoje vista como pessimista.

“A gente acha que é melhor do que isso”, disse ele, citando “alguma convicção” de que ainda há consumo represado e de que o efeito forte das medidas tomadas pelo governo para o enfrentamento à crise, como o auxílio emergencial, ainda será visto nos próximos meses.

Campos Neto reforçou que há início de retomada econômica em “V”, mas disse não acreditar que o Brasil irá fazer o “V” completo.

“A gente tende a suavizar o ‘V’ daqui para frente.”

VISÃO TRIBUTÁRIA

Sobre a eventual introdução de um imposto sobre transações no país, ideia que tem sido aventada pela equipe econômica para bancar a desoneração da folha de pagamento das empresas, Campos Neto afirmou que o BC não comenta assuntos dessa natureza, mas reconheceu que “sempre preocupa qualquer banqueiro central qualquer tipo de imposto que gere desintermediação financeira”.

Após o governo ter divulgado na véspera uma primeira parte da reforma tributária sem mexer na desoneração da cesta básica --na direção contrária ao que vinha sinalizado até então--, Campos Neto também afirmou que a autoridade monetária não fez nenhum tipo de intervenção nesse sentido.

Quanto à agenda da autoridade monetária para o sistema financeiro do futuro, Campos Neto adiantou que o PIX, sistema de pagamentos instantâneos do BC, terá o registro de chaves antecipado para 5 de outubro, ante previsão anterior de que isso aconteceria apenas em novembro.

As chaves são o método de identificação do recebedor dos recursos dentro do sistema. Seu registro vincula número de celular, e-mail ou CPF/CNPJ à conta específica do usuário.

Segundo o presidente do BC, a antecipação dessa fase permitirá que, em novembro, o sistema já esteja mais robusto, para que comece a operar de forma mais rápida.

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