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Há viés para mais corte nos juros, mas BC não terá esse diagnóstico cedo, diz diretor

BRASÍLIA (Reuters) - O Banco Central já comunicou que há viés para mais corte nos juros em meio a projeções e expectativas de inflação ainda não alinhadas às metas, mas o diagnóstico de que é possível reduzir a Selic sem mexer com questões prudenciais e de estabilidade financeira levará tempo e não será fechado cedo, indicou o diretor de Política Monetária da autarquia, Bruno Serra.

Homem mostra notas de dólares em casa de câmbio em Peshawar, Paquistão 03/12/2018 REUTERS/Fayaz Aziz

“A comunicação está clara, tem uma assimetria, tem um viés para estimular se o Comitê entender que é possível”, afirmou ele, em live promovida pelo Credit Suisse nesta sexta-feira.

“Tem um recado que a gente precisa de tempo”, completou Serra, acrescentando que esse tempo é necessário para a percepção de “como as coisas estão evoluindo”.

Sobre o risco à estabilidade financeira, Serra esclareceu que ele está ligado ao câmbio, frisando que é razoável esperar que, com diminuição do diferencial dos juros, o câmbio “reaja mais”.

Já quanto às questões prudenciais, ele voltou a dizer que o BC segue atento a eventuais desdobramentos da captação recorde da poupança e de mudanças na indústria de fundos, apesar de ter ressaltado que hoje não há “problema nenhum, zero”.

No início do mês, o BC cortou a taxa básica de juros em 0,25 ponto, à nova mínima de 2% ao ano, e manteve a porta aberta para novas reduções à frente, embora tenha pontuado que, se vierem, elas ocorrerão com “gradualismo adicional”.

Em ata da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) divulgada nesta semana, o BC destacou que precisará de maior clareza sobre a atividade econômica e sobre a inflação prospectiva para essa tomada de decisão, sendo que esses ajustes podem ser “temporalmente espaçados” num contexto em que a Selic está próxima de um limite a partir do qual poderia provocar instabilidade nos preços de ativos.

O BC também expressou que não antevê altas nos juros básicos a menos que as expectativas e projeções para a inflação fiquem suficientemente próximas das metas no seu horizonte relevante para a política monetária.

Serra comentou nesta sexta-feira que o uso da orientação futura (forward guidance) pelo BC veio justamente pela percepção de que a autoridade monetária não poderia simplesmente seguir o modelo para reduzir os juros básicos rapidamente a um nível que colocasse o IPCA na meta no horizonte relevante, em particular no ano de 2021.

“Dada essa restrição, a gente discutiu o que fazer. E aí, dentro da discussão, o ‘forward guidance’ --com todas as condicionalidades que eu acho que são nesse momento necessárias, dada a incerteza do cenário-- nos pareceu adequado, prestaria algum serviço à ancoragem das expectativas de mercado”, disse.

Sobre uma curva de juros “muito mais premiada”, ele avaliou que o mercado também precifica outros riscos, como o ligado ao quadro fiscal, aumento da oferta de títulos pelo Tesouro e o crescimento do crédito no balanço das instituições financeiras.

“É normal, e quanto a isso a gente não tem muito o que fazer, da parte da política monetária a gente deu a sinalização que achava que era mais correta”, disse.

“Não é a meta, na véspera do Copom, a curva ter que estar mais flat senão não foi bem sucedida a comunicação do Banco Central. Definitivamente não é com isso que a gente está preocupado.”

CÂMBIO

Apesar de o menor diferencial de juros levar a um nível mais alto do dólar sobre o real, Serra avaliou que não é tão simples fazer essa ligação para explicar a volatilidade cambial.

“É preciso colocar algumas outras coisas no modelo para extrair essa conclusão, talvez incerteza dos agentes”, afirmou.

Ele ponderou que o Brasil usou muita expansão fiscal no enfrentamento à crise, mesmo com um quadro de forte desequilíbrio das contas públicas. É natural que as variáveis que em geral refletem risco sintam isso, e a volatilidade do câmbio pode ser uma delas, acrescentou o diretor.

Serra também disse que mudanças micro no mercado podem estar ajudando a aumentar a volatilidade no curto prazo e complementou que o BC segue o investigando o tema, ainda sem conclusão fechada.

“Se a gente resolver nossos problemas mais fundamentais, como passar essa pandemia, ficar claro que estamos retomando uma trajetória de crescimento econômico e com arcabouço fiscal que entregue aquilo que é um nível de dívida (razoável para país) emergente ao longo do tempo, tenho impressão que essa volatilidade vai se normalizar ao longo do tempo”, afirmou.

Por Marcela Ayres

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