October 30, 2010 / 4:01 AM / 10 years ago

Duelo final entre Dilma e Serra vira um "não debate"

Por Alexandre Caverni e Hugo Bachega

Os candidatos à Presidência Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) cumprimentam-se antes do debate organizado pela TV Globo no Rio de Janeiro, 29 de outubro de 2010. REUTERS/Bruno Domingos

SÃO PAULO (Reuters) - O último debate entre os candidatos à Presidência foi um não debate. Mas a falta de confronto direto entre Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB), ditada pelas regras, e a estratégia de ignorar a maior parte do tempo o outro levou ambos a gastarem mais energia em discutir os temas propostos do que em fustigar o adversário.

A Rede Globo repetiu o formato usado há quatro anos e no lugar das perguntas de candidato para candidato trouxe questões apresentadas por eleitores indecisos.

Depois do tom bastante agressivo dos últimos debates, os presidenciáveis preferiram usar o encontro da noite de sexta-feira, na antevéspera do segundo turno da eleição, para responder às questões apresentadas.

E em alguns momentos, as perguntas encostaram os dois contra a parede.

“Na propaganda eleitoral dos dois partidos nós vemos uma saúde pública maravilhosa, mas a realidade é que tem muita gente morrendo sem atendimento... só tem gente sofrendo, sendo tratada como lixo”, disse uma eleitora. “A nossa saúde vai mesmo melhorar ou nós vamos continuar sofrendo como animais?”

Nesse caso, Serra, ex-ministro da Saúde, não perdeu a chance de usar um dos temas mais caros da sua campanha para criticar o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“Acho que a nossa saúde parou nos últimos anos e, diante das necessidades, acabou andando para trás”, disse.

E a própria candidata governista teve que reconhecer que a situação não está mesmo boa. “De fato nós temos um problema de qualidade de saúde no Brasil. Temos sim, e se a gente não reconhecer que tem, a gente não melhora.”

Mas as críticas feitas não elevaram o tom nem dominaram a discussão no décimo debate da corrida presidencial. E sem nenhum escorregão de qualquer lado, o impacto do encontro sobre o eleitorado deve ser bastante limitado.

ALOPRADOS E SANGUESSUGAS

Mesmo quando o assunto foi corrupção, os candidatos preferiram citar escândalos antigos, deixando as altas temperaturas de lado.

Serra escolheu os “aloprados” de 2006, quando petistas foram detidos com dinheiro supostamente para comprar um dossiê contra o tucano, que disputava o governo do Estado de São Paulo. Já Dilma preferiu os “sanguessugas”, escândalo envolvendo desvio de dinheiro público na área da saúde na administração Fernando Henrique Cardoso.

“O exemplo tem que vir de cima, o chefe de governo tem que começar dando exemplo escolhendo bem suas equipes e punindo quando alguma irregularidade acontecer”, disse Serra, sem citar a ex-auxiliar de Dilma e ex-ministra da Casa Civil Erenice Guerra.

Encerrado o encontro, falando a jornalistas, Serra justificou a ausência dos novos escândalos de corrupção dizendo que os eleitores já os conhecem e que agora era importante discutir os temas propostos.

A estratégia de evitar críticas mais ácidas pelos candidatos, no entanto, pode ter sido determinada mais pela preocupação com o potencial estrago ao errar o tom no último lance da partida, sem tempo para reação, do que pelas regras, que impediam perguntas entre os dois. Isso sem falar na saturação dos eleitores com alguns assuntos.

DIÁLOGOS

Se de um lado temas centrais do segundo turno, como aborto e privatizações, ficaram totalmente fora do encontro, os candidatos voltaram a bater na tecla de pontos recorrentes, como emprego, sempre citado por Dilma, e segurança, por Serra.

E em pelo menos dois momentos, as respostas, réplicas e tréplicas criaram um “diálogo” entre a petista e o tucano.

Num deles, a discussão gerava em torno de políticas sociais. Serra disse que é preciso ter política de assistência para os mais pobres. “Mas, ao mesmo tempo, deve se criar mecanismos para que eles possam ter renda no futuro e possam se livrar... da necessidade de ter uma ajuda.”

Dilma aproveitou para fazer o que chamou de “constatação”. “Quem cuida de pobre em São Paulo é o governo federal”, disse, sem ser contestada por Serra.

Em outro momento, o tucano aproveitou que nesta semana o “impostômetro”, que mede a arrecadação de impostos no país, chegou a 1 trilhão de reais “50 dias antes do que foi no ano passado”. “Os impostos estão aumentando muito, não é possível”, disse.

A petista preferiu não ignorar. “Sabe por que aumentou a arrecadação? Porque... estamos crescendo”, disse. “Quando isso acontece, você arrecada mais sem aumentar imposto. Você arrecada porque as pessoas consumiram mais, lucraram mais, tiveram maior renda.”

Além disso, o modelo estático dos participantes “presos” atrás de um púlpito deu lugar a um tablado redondo no qual eles caminhavam enquanto respondiam às perguntas.

Ao longo de pouco mais de uma hora e meia de debate, os candidatos responderam a perguntas também sobre funcionalismo público, agricultura, segurança, saneamento, educação, legislação trabalhista, meio ambiente e previdência.

Depois de crescerem nas pesquisas divulgadas no início da semana, os indecisos parecem, finalmente, estar diminuindo. Pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira mostrou que eles são agora apenas 4 por cento dos eleitores.

Reportagem adicional de Maria Pia Palermo e Rodrigo Viga Gaier, no Rio de Janeiro, e de Vladimir Goitia, em São Paulo

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