October 21, 2011 / 12:17 PM / in 7 years

Gaddafi continua a dividir líbios mesmo depois de morto

Por Rania El Gamal e Tim Gaynor

Pessoas comemoram morte do ex-líder líbio Muammar Gaddafi após as orações de sexta-feira na praça dos Mártires, em Trípoli. Após o anárquico drama da captura e morte de Gaddafi, os novos líderes da Líbia discutem na sexta-feira o que fazer com seu corpo, enquanto o povo líbio aguarda a instauração formal de uma nova era democrática. 21/10/2011 REUTERS/Suhaib Salem

MISRATA, Líbia (Reuters) - Após o anárquico drama da captura e morte de Muammar Gaddafi, os novos líderes da Líbia discutem na sexta-feira o que fazer com seu corpo, enquanto o povo líbio aguarda a instauração formal de uma nova era democrática.

Um repórter da Reuters viu o cadáver, com um ferimento de bala na lateral da cabeça, colocado em uma câmara frigorífica em uma antiga zona comercial de Misrata, para onde o corpo foi levado depois que Gaddafi, de 69 anos, foi morto na quinta-feira em Sirte, sua cidade natal.

Um comandante local disse que Gaddafi será enterrado com dignidade e conforme os rituais muçulmanos dentro de 24 horas, mas não está definido se isso será em Misrata, Sirte ou outro local - um dirigente do Conselho Nacional de Transição (CNT) disse à Reuters que há divergências entre os altos escalões a esse respeito.

Em meio a expectativas de que o CNT irá declarar formalmente a “libertação” da Líbia até sábado, iniciando a contagem regressiva para uma nova Constituição e eleições, o ministro interino do Petróleo sugeriu aos seus colegas que o corpo de Gaddafi seja mantido refrigerado durante alguns dias, para que não restem dúvidas sobre sua identidade.

Os argumentos sobre onde e como sepultar os cadáveres de Gaddafi e do seu filho Mo’tassim - depois da surpresa e da confusão despertadas pela notícia da captura e morte deles na quinta-feira - simbolizam, de certa forma, os desafios que o novo governo enfrentará para impor a ordem em um país repleto de grupos armados.

Outro filho de Gaddafi, Saif al-Islam, que era apontado como seu herdeiro político, ainda estaria foragido, mas sem condições de armar uma resistência significativa, segundo funcionários do CNT.

Combatentes de Misrata, terceira maior cidade líbia - cujo cerco pelas forças gaddafistas se tornou um símbolo da revolta, no começo do ano -, se apressaram em levar os cadáveres para o seu lado, e talvez usem isso como parte da sua atual reivindicação por mais espaço no governo provisório.

Pelos atuais planos, uma declaração de libertação, após 42 anos de um regime monocrático, formalizará também a transferência do governo de Benghazi, segunda maior cidade líbia e berço da revolução, no leste, para Trípoli, a capital, no oeste. Ainda não se sabe, no entanto, se a declaração de vitória acontecerá em Benghazi ou Trípoli.

RIVALIDADES

Antigas rivalidades regionais em um país que só foi unificado sob o regime colonial italiano na década de 1930 são parte de complexas divisões tribais e étnicas exploradas por Gaddafi para manter o controle sobre esta nação escassamente povoada (6 milhões de habitantes) e suas substanciais reservas de gás e petróleo.

O ministro do Petróleo, Ali Tarhouni, disse à Reuters que espera ser nomeado primeiro-ministro interino na semana que vem, dando início a uma nova fase na transição para a democracia. Havia a expectativa de que uma nova Constituição fosse redigida em oito meses, mas Tarhouni afirmou que esse prazo pode ser otimista demais.

A confusão em torno das circunstâncias exatas da morte de Gaddafi ilustra as dificuldades que os líbios terão para instaurar a ordem em meio ao caos armado que é o legado de oito meses de guerra civil.

Gaddafi e sua comitiva estavam em um comboio que tentou furar o bombardeio de aviões da Otan em uma desesperada tentativa de fugir de Sirte. O fato de o dirigente e membros do seu círculo íntimo terem sido todos mortos e capturados, incluindo possivelmente dois filhos dele, pode dificultar a reorganização de partidários recalcitrantes do regime deposto.

Por outro lado, as imagens feitas com celulares, aparentemente mostrando Gaddafi ainda vivo e sendo agredido, podem inflamar seus simpatizantes.

O primeiro-ministro interino, Mahmou Jibril, disse na quinta-feira que Gaddafi foi atingido no “fogo cruzado” quando estava sendo levado para o hospital, mas a maioria dos líbios, inclusive alguns ligados ao CNT, parece ter poucas dúvidas de que ele foi morto pelo grupo que o capturou.

Conforme a notícia da morte dele se espalhava, a população saía às ruas para comemorar. Muitos combatentes faziam disparos para o alto, gritando “Allahu Akbar” (Deus é grande). Outros picharam os parapeitos de uma rodovia nos arredores de Sirte. Uma das inscrições dizia: “Gaddafi foi capturado aqui”.

Jibril, lendo o que ele disse ser um laudo pericial, afirmou que Gaddafi foi capturado sem resistência dentro de um “cano de esgoto”. Teria sido então baleado no braço e colocado em um caminhão, que foi “apanhado no fogo cruzado” quando levava o ex-governante para o hospital.

“Ele foi atingido por uma bala na cabeça”, disse Jibril, acrescentando que não estava claro de onde havia partido o tiro fatal. Um médico que examinou o corpo disse à emissora Al Arabiya que um disparo na barriga foi a principal causa da morte.

Nas rápidas imagens de celular divulgadas ao mundo, um homem de cabeleira longa e encaracolada, como a de Gaddafi, aparece ensanguentado e vacilante, sendo golpeado por homens armados, aparentemente combatentes do CNT. Ele aparece sendo puxado pelos cabelos da caçamba de um caminhão. Alguém grita “Deixem-no vivo”, mas o homem desaparece do quadro, e tiros são ouvidos.

“Enquanto ele estava sendo levado, (os combatentes) bateram nele e o mataram. Ele podia estar resistindo”, disse à Reuters uma fonte de alto escalão do CNT, antes de Jibril apresentar outra versão.

O chefe da guarda pessoal de Gaddafi disse que o ex-governante havia sobrevivido a um bombardeio contra o seu comboio.

“Eu estava com Gaddafi e com Abu Bakr Younis Jabr (chefe do Exército de Gaddafi) e com uns quatro soldados voluntários”, afirmou Mansour Daou à Al Arabiya. Ele acrescentou que não presenciou os últimos momentos de Gaddafi porque foi ferido e caiu inconsciente.

Não faltaram também combatentes dizendo terem visto Gaddafi - que prometera morrer lutando - encolhido em um buraco, como Saddam Hussein no Iraque há oito anos, e implorando por sua vida.

Numa dessas versões, reconstituída a partir de várias fontes, Gaddafi teria tentado escapar ao alvorecer de Sirte, o último reduto de resistência, num comboio de veículos formado quando estava claro que os combatentes do CNT conquistariam a cidade.

Mas ele teria sido contido por um bombardeio francês e capturado, possivelmente algumas horas depois, após tiroteios com as forças do CNT que o encontraram escondido em um cano de drenagem.

A Otan diz que seus aviões bombardearam um comboio próximo a Sirte por volta das 8h30 de quinta-feira (4h30 em Brasília), atingindo dois veículos militares no grupo, mas que não era possível confirmar se Gaddafi era um dos passageiros. A França posteriormente informou que seus jatos haviam interrompido o trajeto do comboio.

Reportagem adicional de Taha Zargoun em Sirte, Barry Malone, Yasmine Saleh e Jessica Donati em Trípoli, Brian Rohan em Benghazi, Jon Hemming e Andrew Hammond em Tunis, Edmund Blair e Yasmine Saleh no Cairo, Samia Nakhoul em Amã, Shaimaa Fayed no Cairo, Sami Aboudi em Dubai e Andrew Quinn em Islamabad

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