January 11, 2014 / 2:47 PM / 4 years ago

OBITUÁRIO-Na guerra ou na retirada, Sharon marchou sua própria caminhada

Por Dan Williams e Jeffrey Heller

JERUSALÉM, 11 Jan (Reuters) - Um ás na guerra e na política, o israelense Ariel Sharon redesenhou o Oriente Médio em uma carreira marcada pelo aventureirismo e pelas derrotas, mudanças dramáticas e impressionantes retornos.

Odiado por muitos árabes e uma figura polêmica dentro de Israel, Sharon deixou sua marca na região como talvez nenhuma outra pessoa, por meio de invasões militares, construção de assentamentos judaicos e uma chocante decisão de retirar colonos judeus da Faixa de Gaza.

Comandante do Exército desde o início do Estado de Israel, em 1948, ele alcançou muitos dos mais importantes cargos na nação, sobrevivendo a grandes debates sobre o seu papel em massacres em campos de refugiados na guerra do Líbano, em 1982, e tornando-se primeiro-ministro em 2001.

Reconhecidamente obeso, ele sofreu um derrame que o deixou em coma em 2006, quando estava no auge do poder, e morreu neste sábado aparentemente sem ter nunca mais recuperado a consciência.

Alguns diplomatas acreditam que, se estivesse bem de saúde, Sharon teria conseguido a paz com os palestinos após superar críticas ferozes dentro de Israel pela retirada de tropas e colonos da Faixa de Gaza em 2005.

“Como uma pessoa que lutou em todas as guerras de Israel, e aprendeu por experiência própria que sem a força necessária a gente não tem chance de sobreviver nesta região, eu também aprendi que apenas a espada não pode encerrar essa grande disputa nestas terras”, afirmou Sharon em 2004, explicando a sua medida.

Mas críticos disseram que o unilateralismo que ele defendia atrapalhava a diplomacia e fortalecia as pessoas com posições ideológicas linha-dura.

Como premiê, Sharon governou durante um dos períodos mais turbulentos da história entre judeus e árabes, com a intifada palestina que eclodiu em 2000 e uma repressão militar israelense depois que as negociações de paz emperraram. Como líder israelense, ele cercou seu arqui-inimigo Yasser Arafat com tanques depois que homens-bomba invadiram Israel a partir da Cisjordânia ocupada.

Há tempos um partidário da construção de assentamentos em terras que Israel tomou na guerra em 1967, Sharon pediu em 1998, quando era ministro das Relações Exteriores, que os colonos da Cisjordânia “corressem para habitar em quantas montanhas conseguissem, para aumentar os assentamentos, pois tudo o que tomarmos agora permanecerá nosso”.

Ele afirmou que a polêmica decisão de se retirar da Faixa de Gaza, que dividiu o partido Likud e o convenceu a formar uma nova força política, daria a Israel a possibilidade de fortalecer seu domínio sobre “um território que é essencial para a nossa existência”.

Era uma referência à Cisjordânia, onde seu governo começou a construir uma incrível barreira durante a intifada palestina. Israel a classificou como uma medida de segurança, mas os palestinos a consideraram uma apropriação indevida de terras.

AVENTURISMO

Sharon dominou Israel de uma forma não vista desde a era de seu premiê-fundador, David Ben-Gurion.

Como muitos líderes nativos de Israel, Sharon, que nasceu em uma Palestina dominada pelos britânicos, cresceu em uma comunidade agrícola. Ele depois viveu em um rancho no sul de Israel, e frequentemente era fotografado passeando nesses campos.

Sharon ingressou no movimento paramilitar judeu Haganah aos 14 anos.

Ferido em combate em 1948, na guerra que criou o Estado de Israel, ele foi promovido até comandar importantes unidades e desenhou uma política de represálias, mesmo às custas de vidas inocentes, para ataques contra guerrilhas palestinas na fronteira.

Além de sua reputação no setor militar pela imprudência e por desobedecer ordens, Sharon era saudado por operações ousadas que trouxeram vitórias no campo de batalha. Ele se aposentou como major-general.

“Foi ele quem estabeleceu o princípio de que ninguém que atacasse nossas tropas ou civis ficaria imune, não importa aonde estivessem”, afirmou o ex-ministro da Defesa Yitzhak Mordechai.

Promovido a chefe do Estado-Maior, Sharon deixou o Exército no verão de 1973. Três meses depois, estava de volta como general reservista, comandando tropas que lançaram uma contraofensiva que ajudou as forças egípcias na Guerra no Yom Kipur, em 1973.

Uma foto de Sharon no deserto, em meio à batalha e com sua cabeça com um curativo, tornou-se uma das imagens mais marcantes do conflito.

Ele ajudou a formar o partido Likud, que agradou a subclasse de judeus com ascendência no Oriente Médio e chegou ao poder nas eleições de 1977, encerrando a dominância do Partido Trabalhista, de influência europeia.

Escolhido como ministro da Agricultura, Sharon usou seu cargo e a chefia de um comitê ministerial para construir novos assentamentos, o que rendeu a ele o apelido de “trator”.

Como ministro da Defesa sob o governo do premiê Menachem Begin, Sharon bolou a invasão do Líbano em 1982, uma das campanhas militares mais polêmicas de Israel.

O que começou como um combate a guerrilhas palestinas na fronteira se tornou uma sombria e custosa tentativa de instalar um governo mais amigável a Israel em Beirute.

O ódio dos árabes a Sharon vem do massacre de centenas de civis palestinos nos campos de refugiados libaneses de Sabra e Shatila, por milícias cristãs aliadas de Israel.

Ele negou os crimes, mas teve que renunciar como chefe da Defesa em 1983, depois que uma investigação israelense concluiu que ele tinha “responsabilidade pessoal” por não impedir o massacre.

A MARCA DE CAIM

Sharon classificou a investigação como a “marca de Caim”, e muitos pensaram que sua carreira política estava acabada. Mas, depois de ter vários cargos no governo, ele foi eleito chefe do Likud em 1999 e premiê em 2001, comandando o país até o seu derrame, cinco anos depois.

Como ministro, visitou em 2000 o complexo da mesquita Al-Aqsa, em Jerusalém, o terceiro local mais sagrado para o Islã, e que também é importante para os judeus, como lugar onde ficavam os templos judeus da Bíblia.

A visita, em uma região de Jerusalém capturada na guerra de 1987 e anexada em uma medida que nunca ganhou reconhecimento internacional foi amplamente vista como a faísca necessária para iniciar a segunda intifada palestina.

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