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Médico indiano recebe escolta policial contra familiares de pacientes com Covid-19 em hospital

BHAGALPUR, Índia (Reuters) - Guardas armados com rifles escoltam o doutor Kumar Gaurav enquanto ele faz suas visitas de rotina no hospital em que trabalha às margens do Rio Ganges.

Médico indiano Kumar Gaurav põe equipamento de proteção contra coronavírus antes de ir para hospital 27/07/2020 REUTERS/Danish Siddiqui

Os guardas o protegem de familiares de pacientes, inclusive aqueles com Covid-19, que insistem em invadir as alas hospitalares, e até a UTI, para acariciar e alimentar seus entes queridos, muitas vezes sem usar sequer a mais precária das máscaras como barreira contra o novo coronavírus.

“Se os detemos, eles ficam bravos”, diz ele. “Eles querem dar refeições caseiras a seus pacientes, e alguns até querem massagear seus pacientes. E estão levando as infecções de nossas UTIs para as outras pessoas da sociedade.”

Ele se interrompe para dizer à esposa de um paciente de UTI que ela precisa ir embora. Ela obedece, mas volta minutos depois por outra entrada.

O país está na estação das monções, e a umidade se aproxima de níveis insuportáveis, mas os poucos aparelhos de ar condicionado do hospital não estão funcionando, e alguns familiares usam abanadores para refrescar seus parentes em alas repletas de lixo e equipamento de proteção descartado.

Como alguns médicos foram contaminados com coronavírus e outros se recusam a trabalhar, ele foi nomeado como a principal autoridade do hospital -- apesar de ser um de seus consultores menos experientes e de sofrer de diabetes e hipertensão, dois fatores de risco para casos graves de Covid-19.

Mas ele diz que se sentiu obrigado a se oferecer para o trabalho.

“Muitos de meus colegas se recusaram. Tive que assumir a responsabilidade”, disse.

Entrevistas com dezenas de funcionários, pacientes e familiares do hospital de Bihar, Estado do leste indiano, revelaram uma falta crônica de mão de obra e recursos, como sangue e remédios. Todos os 37 leitos da UTI estão ocupados.

Enquanto as infecções diminuem em muitos outros países, a Índia continua relatando mais de 50 mil casos por dia. Seu total de mais de 2 milhões de caso só fica atrás dos números de Estados Unidos e Brasil, e os casos não dão sinais de recuo. Desde o início da pandemia, mais de 46 mil pessoas já morreram.

Embora as maiores cidades indianas, como Nova Délhi e Mumbai, tenham registrado uma redução de casos, os números de cidades menores e de áreas rurais continuam a aumentar.

O sistema de saúde já estava sobrecarregado mesmo antes da chegada da pandemia. O doutor Sunil Kumar, secretário da Associação Médica Indiana de Bihar --o principal sindicato do setor de saúde da nação-- disse que mais da metade das vagas para médicos no Estado não estão preenchidas porque estes não querem trabalhar em áreas rurais, de acordo com o principal tribunal de Bihar.

O temor do vírus e a revolta com a falta de recursos também assombram pacientes e familiares.

Em um domingo de julho, Parsada Sah, um lojista de 67 anos, foi diagnosticado com coronavírus em um vilarejo situado a 50 quilômetros de Bhagalpur, em Bihar. Seu filho, que o acompanhou, ouviu do médico de plantão que não havia leitos nas alas de Covid-19 e que deveria procurar uma cama em uma ala emergencial de 20 leitos já lotada.

Reportagem adicional de Alasdair Pal em Nova Délhi

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