7 de Dezembro de 2012 / às 17:03 / 5 anos atrás

Brasil e Argentina discutem entraves comerciais que afetam Mercosul

Por Esteban Israel

A presidente do Brasil, Dilma Rousseff (esquerda), e a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, posam para foto oficial no Palácio do Itamaraty, em Brasília. 7/12/2012 REUTERS/Ueslei Marcelino

BRASÍLIA, 7 Dez (Reuters) - A verdadeira cúpula do Mercosul em Brasília começa nesta sexta-feira, mas quando todos os convidados já estiverem voltando para casa.

Será quando a presidente Dilma Rousseff e a colega argentina Cristina de Kirchner irão se fechar durante duas horas a sós no Palácio da Alvorada para discutir a lista cada vez maior de problemas que tumultuam a relação entre as duas maiores economias da América do Sul.

O Brasil quer discutir a queda de 21 por cento das importações brasileiras pela Argentina no ano e a acelerada perda de mercado perante a China, disse à Reuters uma autoridade brasileira de alto escalão.

“A Argentina também é um problema brasileiro. O Brasil não pode permitir que haja uma crise”, disse a fonte. “Temos uma aliança estratégica e temos de buscar uma solução”, acrescentou.

Reservadamente, no entanto, as autoridades brasileiras se mostram cada vez mais frustradas com os entraves comerciais impostos este ano pela Argentina para tentar conter a saída de dólares do país.

O ponto de vista da Argentina é diametralmente oposto. “Não há conflitos”, disse um diplomata argentino do alto escalão que esperava a chegada de Cristina no hall do Palácio do Itamaraty, a sede do Ministério das Relações Exteriores brasileiro onde a cúpula é realizada. “O comércio é apenas uma pequena parte da agenda bilateral”, afirmou.

PERDENDO PESO

A reunião entre Dilma e Cristina Kirchner ilustra os malabarismos do Brasil para não perder um mercado de 22,7 bilhões de dólares anuais para seus produtos.

O governo brasileiro tem gasto montanhas de dinheiro para tentar melhorar a competitividade de suas indústrias mediante isenções fiscais e intervenções para enfraquecer o real. A última coisa que quer é perder seu terceiro cliente depois da China e dos Estados Unidos.

Outra autoridade da área econômica do governo brasileiro disse que houve “sinais de avanço” durante uma reunião ocorrida na semana passada com Dilma e Cristina na Argentina.

“Mas com a Argentina é preciso ver para crer”, advertiu. “Nossa mensagem é clara: hoje toda a relação passa pela questão comercial.”

A Argentina disse que o sistema de controle de importações introduzido este ano para proteger seu superávit comercial não busca frear as exportações brasileiras.

“Ao final das contas, eles seguem tendo um superávit comercial conosco”, declarou o diplomata argentino.

Mas as estatísticas sugerem que a Argentina é responsável por quase a metade da queda de 33,9 por cento no superávit comercial do Brasil durante os primeiros 11 meses de 2012.

Por isso, os empresários brasileiros são muito céticos. “Não esperamos nenhum grande avanço com a Argentina”, disse Marco Marconini, diretor de negociações internacionais da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). “Já vimos essas idas e vindas milhões de vezes.”

“É muito decepcionante porque a Argentina goza de claras preferências para exportar ao Brasil e nós, em troca, somos constantemente penalizados. Não tem sentido”, acrescentou.

MERCOSUL ANACRÔNICO

Os problemas entre as duas maiores economias do Mercosul ilustram o momento fraco da união aduaneira lançada há duas décadas.

Longe de desaparecer, as fronteiras se transformaram em muros que freiam o comércio e as autoridades brasileiras reconhecem, em particular, que o Mercosul os prende na hora de negociar com países de fora do bloco.

“Tornou-se algo um pouco anacrônico”, disse uma fonte oficial brasileira.

O Brasil, porém, também joga na defensiva. O país suspendeu no começo deste ano um acordo de livre comércio de automóveis com o México e impôs cotas de importação para conter os números vermelhos em sua balança com esse país.

O setor privado sente que o Mercosul, integrado ainda por Paraguai, Uruguai e há alguns meses também pela Venezuela, perdeu sua essência como união aduaneira.

A principal realização da cúpula de sexta-feira em Brasília poderá se limitar à abertura das portas do bloco para a Bolívia, em uma nova expansão para a esquerda.

Dilma deu boas vindas à Bolívia, cujo processo de adesão como membro pleno ao bloco está em fase avançada, e citou diálogo exploratório para a inclusão do Equador, cuja economia é dolarizada. Os presidentes de ambos os países, Evo Morales e Rafael Corrêa, foram a Brasília participar do encontro.

Avanços comerciais? Poucos, dizem os empresários.

“O Mercosul não funciona. É um exemplo de confusão”, disse Pedro de Camargo, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Carne de Porco, um dos setores mais atingidos pelos entraves argentinos.

Reportagem adicional de Anthony Boadle e Hugo Bachega, em Brasília, e de Mario Naranjo em Caracas

0 : 0
  • narrow-browser-and-phone
  • medium-browser-and-portrait-tablet
  • landscape-tablet
  • medium-wide-browser
  • wide-browser-and-larger
  • medium-browser-and-landscape-tablet
  • medium-wide-browser-and-larger
  • above-phone
  • portrait-tablet-and-above
  • above-portrait-tablet
  • landscape-tablet-and-above
  • landscape-tablet-and-medium-wide-browser
  • portrait-tablet-and-below
  • landscape-tablet-and-below